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sábado, 21 de abril de 2012

REI JUAN CARLOS I ATIRA EM TUDO, ATÉ NO IRMÃO!!!


El matador

Enquanto a Espanha está à beira do colapso financeiro, o rei Juan Carlos é flagrado em uma caçada a elefantes e provoca uma onda de indignação no país

Laura DaudénRevista IstoÉ
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PREDADOR
O elefante morto por Juan Carlos na semana passada (à esq.)
e búfalos caçados pelo rei: reputação manchada
O rei Juan Carlos de Bourbon da Espanha sempre gozou de prestígio em seu país e fora dele. Apesar de ter sido pupilo do general Francisco Franco, que o incumbiu de perpetuar o famigerado Movimento Nacionalista, o monarca foi um dos artífices da redemocratização espanhola e um defensor incansável do Estado de direito. Ao contrário de outros nobres europeus – especialmente os britânicos –, que passaram os últimos anos colecionando escândalos, Juan Carlos consolidou uma reputação de seriedade e discrição, o que o manteve relativamente livre do escrutínio público. Na semana passada, essa imagem sofreu um grave revés. Tudo se deve a uma viagem a Botsuana, na África, cujo saldo foi um elefante abatido, um quadril fraturado e um país inteiro decepcionado.

A notícia de que Juan Carlos estava na África para caçar elefantes se tornou pública no sábado 14, coincidentemente o dia em que se celebra a instauração da Segunda República, movimento que resultou no exílio de Afonso III, avô de Juan Carlos, e na instauração de um governo democrático. Não fosse um tropeção do rei, acidente que exigiu uma intervenção cirúrgica, e os espanhóis provavelmente não saberiam do safári. Assim que a aventura se tornou conhecida, uma onda de indignação varreu a Espanha. Afora o aspecto moral – matar elefantes, mesmo em uma reserva que autoriza tal prática, não é exatamente louvável –, os espanhóis ficaram irritados com a gastança no momento em que o país enfrenta uma das piores crises econômicas de sua história. Estima-se que a diversão tenha custado 40 mil euros, o que não é nenhuma fortuna, mas demonstraria a falta de sensibilidade de Juan Carlos diante de uma população que está sendo convocada para realizar sacrifícios financeiros.
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A revelação de que a viagem teria sido paga pelo empresário saudita Mohamed Eyad Kayali, espécie de representante dos interesses de seu país na Espanha, só reforçou as críticas. “É de um mau gosto atroz e uma injuriosa prova da desigualdade entre os privilegiados e os necessitados”, diz Ramón Cotarelo, professor de teoria política da Universidade Nacional de Educação a Distância, em Madri. Para José Maria Ledesma, titular da cadeira de história contemporânea da Universidade de Zaragoza, a viagem é uma traição. “Caçar animais protegidos quando a Espanha está à beira do colapso financeiro é um balde de água fria no prestígio da monarquia.” Autoridades do Partido Popular, atualmente no governo, também expressaram sua consternação e entre os políticos espanhóis houve até quem falasse em abdicação do trono. O partido Esquerda Unida anunciou que pressionará o Congresso para que se convoque um referendo a fim de discutir a continuação ou não da monarquia.

Para tornar o quadro ainda mais dramático, Juan Carlos é presidente honorário, na Espanha, da organização conservacionista WWF. Como era de se esperar, a caçada feriu a imagem da organização. Depois de uma mobilização na internet que reuniu mais de 60 mil assinaturas, a ONG mandou uma carta ao Palácio da Zarzuela afirmando que o incidente representa “um grande prejuízo para a credibilidade da WWF” e assim numerosos sócios estão pedindo seu afastamento. Diante da forte reação ao caso, Juan Carlos precisou quebrar um tabu histórico. Pela primeira vez em mais de seis séculos de monarquia espanhola, um rei se desculpou publicamente. Na quarta-feira 18, ao deixar o hospital, Juan Carlos recitou duas frases que provavelmente marcarão os Bourbon para sempre. “Sinto muito”, disse o rei. “Equivoquei-me e não voltará a acontecer.” A desculpa não significa o fim da tempestade. Como resume o professor Ledesma, o próprio fato de que o rei se veja obrigado a tal gesto abre um precedente perigoso para a Casa Real. “Subitamente, o monarca se torna visivelmente real, corpóreo, humano e, portanto, sujeito à crítica como todos os demais.” 
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segunda-feira, 4 de julho de 2011

ITAMAR FRANCO, POBRE E HONESTO!


O adeus do colecionador de singularidades, QUE MORREU POBRE E HONESTO!!!

O mineiro registrado em Salvador com o nome de Itamar por ter nascido a bordo de um ita no mar da Bahia já chegou ao mundo colecionando singularidades e paradoxos. Foi o que fez Itamar Augusto Cautiero Franco até o fim da vida: nos últimos cinco meses, por exemplo, reafirmou no Congresso que o destino determinou no dia do nascimento que aquele seria ─ ele sim ─  um homem incomum: aos 81 anos, mostrou-se o único senador da oposição disposto a combater o governo com o vigor e a determinação de um líder estudantil.
Diferente desde o berço, chegou ao Senado pela primeira vez em 1974, quando ainda era um político de província, empurrado pela onda de insatisfação com o regime militar. O fenômeno transferiu para Brasília, sem escalas, o prefeito reeleito de Juiz de Fora que nunca tivera votos fora do município. Integrante da bancada majoritária, obstruiu sozinho dezenas de sessões para impedir a aprovação de projetos que o desagradavam. Irretocavelmente honesto, aceitou ser candidato a vice de Fernando Collor. Sorte do Brasil: a decretação do impeachment seria muito mais complicada se o substituto fosse como o titular.
Impulsivo, temperamental, rompeu com o companheiro de chapa já no começo do mandato, mas não o atacou ostensivamente nem estimulou conspirações. Premiado pela conjunção de acasos com o cargo que todo político cobiça, adiou a posse por alguns dias para ficar ao lado da mãe enferma. Turrão, montou o primeiro governo de união nacional da história republicana. Como o PT preferiu hostilizá-lo, resolveu o problema à mineira: convenceu Luiza Erundina a representar no ministério o partido que ajudara a fundar.
Erundina foi suspensa pelos companheiros, mas ampliou coleção de espantos produzidos pelo novo presidente. Instalado no gabinete mais importante do país, irritava-se com jornalistas que o impediam de namorar em paz no cinema de Juiz de Fora. Avesso a exibicionismos, apareceu num camarote na Marquês de Sapucaí ao lado de uma modelo sem calcinha. (Num artigo na Zero Hora, creditei-lhe a invenção da primeira-dama por uma noite. Ele retrucou com uma carta manuscrita em que me acusava de fazer-lhe “oposição sistemática”).
Sem entender de economia, nomeou para o Ministério da Fazenda um sociólogo que, embora também pouco entendesse, acabaria dividindo com o presidente a paternidade do Plano Real. Só um Itamar Franco pensaria em tirar Fernando Henrique Cardoso do Ministério das Relações Exteriores para encarregá-lo de domar a inflação. Só um Itamar Franco daria plenos poderes à equipe de economistas recrutados por FHC que livraram o Brasil do pesadelo inflacionário. E só um Itamar Franco, depois de ter desencadeado o processo de ressurreição da economia em frangalhos, pensaria em ressuscitar o Fusca.
A Volkswagen voltou a fabricar o modelo pré-histórico a pedido do presidente, que amparou a reivindicação em motivos estritamente estéticos: ele achava bonito o carrinho feioso. Monoglota, fez questão de virar embaixador ao deixar o poder. Contemplado com postos disputados a cotoveladas por todos os diplomatas, não demorava a entediar-se: achava que os palácios e mansões onde morava ficavam muito longe de Minas em geral e, em particular, de Juiz de Fora. (Num artigo no Jornal do Brasil, recomendei-lhe que ficasse mais tempo no local de trabalho. Ele replicou com outra carta desaforada).
“O Itamar guarda os ódios na geladeira”, disse Tancredo Neves. Não sobrou espaço para estocar alguns ressentimentos que o atormentaram depois da passagem pela Presidência. O mais evidente distanciou-o de FHC ─ e, por algum tempo, aproximou-o perigosamente de Lula. “O Fernando não reconhece que foi eleito por mim e que o Plano Real aconteceu no meu governo”, zangou-se em incontáveis entrevistas. Fernando Henrique sempre revidou com elogios e manifestações de gratidão, mas só recentemente a reconciliação se consumou.
Feitas as contas, Itamar acertou bem mais do que errou. Mas bastaria a evocação da rara marca de qualidade que marcou o presidente morto na manhã deste sábado para garantir uma avaliação positiva: político em tempo integral desde a juventude, ele foi sempre franco, honesto e honrado. Num Brasil em decomposição moral, vai fazer muita falta.