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sábado, 4 de maio de 2013

ROBERTO CARLOS, HUGO CHÁVEZ E MADURO

FLÁVIA MARREIRO
DE SÃO PAULO

Em busca de uma conexão emocional com os venezuelanos, saudosos do magnetismo pop de Hugo Chávez, o presidente Nicolás Maduro resolveu apelar para o romantismo de Roberto Carlos.
São as notas ao teclado de "Detalhes", em sua versão em castelhano cantada pelo próprio Rei, que introduzem uma propaganda de Maduro.
"Detalles tan pequeños de los dos/son cosas muy grandes para olvidar", canta Roberto. Então, surge o narrador: "Detalhes - Histórias reais vividas na rota do ônibus da revolução", uma referência ao passado do chavista como motorista de ônibus.
A produção de pouco mais de dois minutos conta a visita de Maduro em abril passado a eleitores do oponente Henrique Capriles no Estado de Amazonas, com boa parte da população indígena.
"Você é igual a mim. Eu sou igual a você. Sou operário como você", diz Maduro, de cocar, a duas eleitoras. "Não importa a raiva que vocês tenham do governo. Estamos aqui para proteger vocês."
Uma delas rebate: "[Raiva] de Chávez não, ouviu?", numa demonstração de um problema para o herdeiro na campanha e no governo: os chavistas repetem que apoiavam o presidente morto em março, mas não parecem tão dispostos a perdoar as falhas do governo chavista.
O vídeo termina com a decisão do presidente venezuelano de entregar uma nova casa às mulheres.
A propaganda foi exibida no canal estatal VTV há duas semanas, já depois da apertada vitória sobre Capriles por 1,49% dos votos. Está disponível no canal oficial da Presidência da Venezuela no YouTube, que se refere à produção como parte de uma série de vídeos.
Além da voz de Roberto, o canal celebra outra participação brasileira, a do escritor Paulo Coelho, que enviou um conjunto de livros a Maduro, um seguidor do guru indiano Sai Baba, em abril.
"A lealdade é uma pérola entre os grãos de areia que só os que realmente entendem o seu significado podem ver", lê Maduro, citando Coelho, nas imagens.
SEM AUTORIZAÇÃO
Questionada, a assessoria jurídica do cantor Roberto Carlos informou à Folha que a utilização de "Detalles" "não foi autorizada".
"Fizemos a notificação jurídica a ser enviada via escritório da Venezuela, à qual se seguirão as medidas indenizatórias pelo uso indevido da obra", afirmou o advogado Marco Campos.
Segundo ele, o cantor brasileiro não costuma autorizar a utilização de músicas suas para fins políticos.
Não é a primeira vez, no entanto, que a TV estatal usa uma canção de Roberto.
Em fevereiro, peça embalada com "Amigo" falava da amizade dos "irmãos de luta" Evo Morales, presidente da Bolívia, e o então convalescente Chávez.
A assessoria da Presidência da Venezuela não havia respondido aos pedidos de informação sobre o tema até o encerramento desta edição.
A empresa Pólis, de João Santana, informou que o marqueteiro brasileiro não tem vinculação com "Detalles". Santana não trabalhou na campanha de Maduro, mas dirigiu o depoimento de Luiz Inácio Lula da Silva em apoio ao chavista e autorizou o uso de peças produzidas por ele para Chávez em 2012.

sábado, 21 de julho de 2012

À BEIRA DO CAMINHO ( EU VOLTEI)




Roberto Carlos sobre canções em filmes: 'Tem músicas que eu não cedo'

'À Beira do Caminho', que estreia em agosto, tem 4 autorizações do cantor; relembre filmes com trilha do Rei

20 de julho de 2012 | 22h 30

Luiz Carlos Merten e Jotabê Medeiros - O Estado de S. Paulo
Quais músicas de Roberto Carlos você escolheria para a trilha do seu filme? A pergunta certa não é bem esta - "Quais músicas o Rei deixaria você usar"? Após um ano tentando, o diretor Breno Silveira, de À Beira do Caminho (filme que estreia nacionalmente em 10 de agosto), chegou ao cantor com uma lista de umas 12 canções e saiu com apenas quatro autorizações. Ainda assim, Silveira (que fez 5,3 milhões de espectadores com 2 Filhos de Francisco) ergue as mãos para os céus e agradece - as quatro canções que Roberto autorizou pessoalmente foram o substrato do seu filme. "Tem músicas que eu não cedo, é uma questão pessoal", justificou o cantor. E Breno, por outro lado - "Ele praticamente me deu as músicas. Cobrou muito barato, um preço simbólico, de quem não queria inviabilizar o filme."
Cena do filme À Beira do Caminho, de Breno Silveira - Divulgação
Divulgação
Cena do filme À Beira do Caminho, de Breno Silveira
A relação entre pai e filho está no centro do cinema de Breno Silveira. 2 Filhos de Francisco, a cinebiografia de Zezé Di Camargo e Luciano, é sobre o sonho de um pai para transformar os filhos em cantores de sucesso. À Beira do Caminho é sobre um caminhoneiro que não tem quem o espere em casa - o inverso de uma canção de Roberto - e que se liga a um menino, na estrada. Outra vez a estrada, agora uma estrada brasileira, não a que pavimentou a utopia beat de Walter Salles em On the Road. E há de novo pai e filho em Gonzaga, que trata da relação entre Gonzaguinha e Gonzagão, o sanfoneiro do Brasil - filme que Silveira finaliza para o centenário do artista, em novembro.
Cinema e música, música e emoção. É o tripé sobre o qual se assenta a estética do ex-fotógrafo Breno Silveira. Falando em emoção, quem mais poderia fornecer a trilha de seus filmes? O Rei. O cinema é fascinado pelo repertório de Roberto Carlos. Quando se pensa nele, em termos de cinema, a relação imediata é com os três filmes que o próprio Roberto interpretou para Roberto Farias, há mais de 40 anos. Roberto Carlos em Ritmo de Aventura, em 1968, foi o primeiro. Seguiram-se Roberto Carlos e o Diamante Cor de Rosa, em 1970, e Roberto Carlos a 300 Km por Hora, em 1971. À parte o apuro técnico e sonoro - para realçar as canções; cada filme pode ser ouvido como um CD, na época era um long-play, desde Como É Grande o Meu Amor por Você às Curvas da Estrada de SantosDe Tanto Amor -, não há muito mais para destacar e há críticos que não perdoam o diretor (de obras-primas do cinema brasileiro) por haver feito aquelas comédias alienantes enquanto o pau comia sob a ditadura, situação que o próprio Farias mostrou depois emPra Frente, Brasil.
Só que a relação do Rei com o cinema não se esgota aí. Várias de suas composições parecem roteiros prontos de curta e você consegue ver as imagens enquanto ele canta -DetalhesEu Voltei e A Varanda. Esse fica ainda melhor, como roteiro, na versão cool de Nara Leão. Em 2003, quase uma década antes de Breno Silveira, Vicente Amorim também foi a Roberto Carlos pedindo autorização para que suas canções embalassem a odisseia de Romão, um brasileiro - interpretado por Wagner Moura na fase anterior ao Capitão Nascimento. Com a mulher e os cinco filhos, ele atravessa meio Brasil de bicicleta para realizar o sonho de reconstruir a vida no Rio Maravilha. De fundo, as canções do Rei.O Caminho foi produzido por Bruno Barreto. Coincidentemente, um verso de Roberto, da música Pra Ser Só, foi o que deu a origem a Amor Bandido, de Bruno, em 1978.
E há o Roberto internacionalCanzone per Te, em parceria com Sergio Endrigo, ganhou o Festival de San Remo (em 1968) e foi integrada à trilha de Roberto Carlos em Ritmo de Aventura, naquele mesmo ano. Isso contribuiu para popularizar o Rei na Itália, a ponto de Luchino Visconti o integrar à trilha de Violência e Paixão, de 1974. O filme é sobre um velho professor (Burt Lancaster) que vive isolado. Entra em sua vida uma família que vai desestabilizá-lo. Numa cena chave, uma orgia, todo mundo nu, o sexo é embalado pelo Rei - Testarda/La Mia Solitudine, cantada por Iva Zannichi. A cena é excepcional e a trilha inusitada, considerando-se que Roberto baniu E Que Tudo o Mais Vá para o Inferno de seu repertório.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

ROBERTO CARLOS ACORDOU COM 70 ANOS OU ALEGRIA NÃO É PECADO E SACRIFÍCIO NÃO É VIRTUDE...

A renúncia de Roberto Carlos

Por que, aos 70 anos, o “Rei” se sacrifica em nome da arte
Luís Antônio Giron
Revista Época
Luís Antônio Giron
Editor da seção Mente Aberta de ÉPOCA, escreve sobre os principais fatos do universo da literatura, do cinema e da TV

Hoje ele acordou com 70 anos. Não é uma sensação agradável, nem mesmo para quem sabe que será homenageado com uma festa, receberá presentes, será lembrado. Mas Roberto Carlos não tem motivos para comemorar: sua coleção de perdas pessoais é enorme e difícil de suportar. Sua filha mais velha morreu há poucos dias. A mãe foi embora há um ano. O grande amor parece que também se foi há alguns anos. Ele acordou só, com seus 70 anos.

O herói vocal do Brasil não gosta que comentem sua vida privada. Talvez nem mesmo ele queira pensar nela. Mas há momentos inevitáveis, em que as canções e as emoções convergem ao mesmo ponto. E o músico teve de adiar o espetáculo que faria amanhã em Vitória, por ocasião de seu aniversário. A produção do show justifica que naturalmente Roberto está de luto. O que leva os admiradores a imaginar o que ele está passando agora que completa uma data tão importante e, de certo modo, tão grave – sobretudo para um artista que ostentou, nos anos 60, nos tempos da Jovem Guarda, o título de “o Rei da Juventude”. Com o tempo, virou apenas “o Rei”. Quem um dia foi jovem não pode mais ser jovem, eis a tragédia. Restam as emoções vividas, como Roberto diz numa canção, e a arte: a arte do canto, à qual se dedicou ao longo de 52 anos de carreira, e pela qual conquistou a glória. O que tudo isso significa? Nesta data querida, o músico brasileiro mais celebrado parece mostrar que sua vida foi dedicada à arte, a ponto de ter renunciado muitas vezes às suas alegrias, em nome da missão maior de cantar diante das multidões, compartilhando seu coração com elas. Não, como diz Paulo Coelho em um tuíte recente, alegria não é pecado, sacrifício não é virtude. Na arte de Roberto Carlos, porém, a oposição arte-vida faz todo o sentido. E é talvez a senha para compreender suas cerca de 450 composições próprias, para não mencionar aquelas que interpretou, infundindo nelas um sopro genial.

Sonhei esta noite com as canções do Roberto, certamente porque desde menino eu as tenha introjetado. Na semana passada, ao elaborar para a revista ÉPOCA uma lista de 20 delas, metade conhecida e metade não, percebi espantado que as sabia de cor. Logo eu, que esqueço tudo que é letra de música. Foi assim que sonhei com as canções, entoando-as inteirinhas, umas cinco ou seis, como se fossem minhas. Elas se gravaram no meu subconsciente. Imagino que muita gente também cante essas músicas sem nem pensar. Esse fenômeno pode indicar, entre outros, o papel fundamental de Roberto na cultura brasileira. Sua voz vibra nos ouvintes em um plano aquém da razão.

O que quero dizer é um truísmo, uma aparente obviedade: a trajetória de Roberto Carlos está registrada em suas canções. As emoções experimentadas tão intensamente pelo homem se impregnaram na sua arte. É o que acontece com todos os artistas. No entanto, examinadas em conjunto e em perspectiva, as músicas de Roberto contêm uma peculiaridade. Elas contam uma história de fragilidade, abandono, paixão, fé e resignação. Seu percurso é pedagógico, iniciático. Vida e obra parecem se confundir no início, para depois seguirem caminhos divergentes. O acidente que lhe tirou uma perna quando tinha 5 anos na cidade natal de Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo (onde nasceu em 19 de abril de 1941), deixou evidentemente marcas profundas em sua personalidade – e em sua atividade artística. Ao iniciar a carreira, em 1959, incentivado pelo produtor Carlos Imperial, imitava o estilo do inovador vocal do momento: João Gilberto e sua bossa-nova. Cantava sambas líricos e melancólicos, como “João e Maria”, lançado em compacto simples em 1959.

A guinada alegre veio em seguida, quando adotou o rock’n’roll no estilo bubble gum de Tony e Celly Campello. Daí resultaram músicas como “Splish splash” (1962) e “É proibido fumar” (1964). Da alegria, Roberto saltou para a atitude rebelde. Isso aconteceu por volta de 1965, quando começou a lançar rocks atrevidos misturados ao rhythm’n’blues do parceiro Erasmo carlos. O exemplar mais interessante dessa fase é “Quero que vá tudo pro inferno”, um rock que preconiza a transgressão amorosa como solução para a felicidade. Líder da Jovem Guarda, Roberto consagrou o iê-iê-iê, como passou a denominar o rock que sua turma lançava no programas de televisão de domingo. Roberto e a Jovem Guarda exaltavam alegremente o consumismo e a realização de todas as pulsões.

Na segunda metade da década de 60, Roberto fez a apologia do sexo e da velocidade, em canções que podiam lembrar as dos Beatles, mas já continham o gérmen da originalidade. Em baladas como “As curas da estrada de Santos”, e “120... 150... 200 km por hora”, o poeta se atira à alta velocidade para assim não ter de encarar a vida. A velocidade dissipa as formas, mistura as cores e apaga o vínculo do sujeito com o mundo concreto.

No finalzinho dos anos 60, o lirismo e as canções românticas assomaram na obra do músico. Foi em 1971 que Roberto lançou, no seu terceiro disco com o título Roberto Carlos (quase todos levariam este nome doravante), sua canção mais famosa e bonita: “Detalhes”. Reparando bem, a melodia soa como uma seresta e seus versos, povoados de reticências, propõem a abnegação e mesmo a negação do amor. O poeta se dirige ao objeto amado, tomado pela saudade, o fatalismo e a incapacidade de obter prazer novamente. Os seguintes versos são o cerne da canção: “Se alguém tocar/ Seu corpo como eu/ Não diga nada/ Não vá dizer meu nome/ À pessoa errada... Pensando ter amor/ Nesse momento/ Desesperada você/ Tenta até o fim/ E até nesse momento/ Você vai/ lembrar de mim...” A projeção do poeta sobre o desejo da amada é dramática na junção do amor ideal com o carnal: nem ela, a musa, será capaz de chegar ao orgasmo sem seu velho amor. O cantor soa como um fantasma a rondar a vida de sua antiga amante, como num conto gótico. No fundo, todo amor resulta impossível, pois não é lícito viver a um só tempo o prazer físico e a transcendência espiritual. Não existe canção de Roberto mais romântica e emblemática que “Detalhes”.

Sobrevém um travo amargo nessa música, como em quase todas que advirão na vida do cantor. Ali se encontra a irreconciliável dualidade entre vida e arte, entre espírito e corpo, entre mundo e artista. Sua fuga posterior será rumo à religião, aos hinos católicos que veem na elevação do espírito a redenção dos pecados. Porque amar, no fim das contas, na obra do músico, não deixa de ser o mais sonhado dos pecados terrenos. O artista começou imitando os modelos que admirava, seguiu assumindo a atitude irresponsável da juventude transviada, mergulhou no desejo e finalmente viu Jesus Cristo.

Roberto é, assim, o exemplo do artista que se sacrifica à arte, que encara a vida como um campo de experiências que resultam em canções puras e simples. Para esculpir sua obra, como o escultor francês François-Auguste René Rodin, o músico se dedicou ao apostolado da grande arte, do trabalho interminável da canção perfeita. Um segredo que, infelizmente, ele próprio foi perdendo, à medida que quis subir aos céus da transcendência devocional. Curiosamente, ao abdicar da carne, o artista extraviou o que tinha de mais denso e lírico. Nesse sentido, nessa monumental e comovente derrocada que é sua arte, Roberto Carlos se revela profundamente romântico, não no sentido banal do termo, mas no da estética do movimento romântico do século XIX. A exemplo dos poetas românticos, ele se retirou do mundo dos homens comuns, isolou-se nos palcos dos estádios lotados e sacrificou sua arte a Deus. Mas talvez não tenha havido outra saída para o indivíduo e sua coleção de sofrimentos. Hoje ele acordou com 70 anos. E todos nós, seus admiradores, também despertamos com o fardo de tanta beleza.

(Luís Antônio Giron escreve às terças-feiras.)

sexta-feira, 4 de março de 2011

"A IMAGEM DA PESSOA PÚBLICA É PÚBLICA"

Fernando Morais: "A imagem da pessoa pública é pública"

TV Estadão | 3.3.2011

Em entrevista a Felipe Machado, o jornalista e escritor fala sobre o apoio à lei que acaba com a censura a biografias de figuras públicas