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sábado, 2 de fevereiro de 2013

O PREFEITO BANDIDO E POLÍTICO DE CARREIRA DE SANTA MARIA ( RS)


O papelório do prefeito garante que não havia nada de errado na boate assassina

Cezar Schirmer
Nascido há 60 anos em Santa Maria, onde sempre viveu, Cezar Schirmer conhece rua por rua, prédio por prédio a cidade que governa. Reeleito em outubro, o prefeito teve mais de quatro anos para conhecer página por página, linha por linha a legislação municipal concebida para impedir que aconteça o que aconteceu. Político profissional há 40 anos, o ex-vereador, ex-deputado estadual, ex-deputado federal e ex-secretário de Estado sabe que, quando algum episódio ameaça a sobrevivência eleitoral, a culpa é sempre dos outros.
Se é que nunca entrou na Kiss, o prefeito cansou-se de ver o caixote comprimido pelos edifícios vizinhos que  já foi fábrica de cerveja antes de virar boate pronta para fabricar massacres. Schirmer também conhece as normas que determinam a interdição ou o fechamento de casas noturnas que não dispõem de saídas de emergência adequadamente sinalizadas. A Kiss tinha uma única porta, pela qual entraram e deveriam ter saído mais de 200 vítimas de homicídio culpado. Os fiscais da prefeitura deveriam vistoriar o local regularmente. Se olhassem por alguns segundos as paredes e o teto,  notariam que o dono do lugar resolvera enfeitá-los com material  inflamável.
Nessa hipótese, o serial killer que explorava baladas seria obrigado a exercitar a ganância criminosa em outro ramo. E Schirmer, como registra o comentário de 1 minuto para o site de VEJA, não estaria lastimando a tragédia que nada fez para evitar. “Nunca chorei na minha vida, e agora choro toda hora”, repetiu nesta quarta-feira. Para não ter de chorar também a perda do mandato ou a morte nas urnas, o oficial graduado do PMDB gaúcho  tenta terceirizar os pecados que cometeu.
Segundo o chefe da administração municipal, as investigações policiais, que já mandaram para a cadeia o dono da Kiss, devem concentrar-se no Corpo de Bombeiros, que deveria ter feito o que o prefeito e seus fiscais não fizeram. Só não têm culpa no cartório os suspeitos homiziados na prefeitura, jura Schirmer. Confira o palavrório em dilmês de bombacha abaixo transcrito (sem correções):
“Estou rigorosamente convencido de que, nas questões que envolvem a prefeitura, os documentos estavam formalmente e rigorosamente aptos para o funcionamento da boate. Os documentos da prefeitura estavam em ordem no dia da tragédia. Sobre outros documentos e questões, não posso opinar. Se há normas técnicas que não estão certas, se o prédio tem de ter cinco portas, se a lei é estadual ou federal… Houve uma vistoria em abril de 2012, que atestava que a boate estava apta para funcionamento. Os dois fiscais que fizeram a vistoria comunicaram que o alvará de incêndio venceria em agosto. O plano não foi renovado, segundo os bombeiros’.
Enquanto a cidade segue estacionada na madrugada apocalíptica, Schirmer caça álibis o tempo todo. Enquanto milhares de eleitores enfrentam a insônia sem remédio, o eleito empilha vigarices com firma reconhecida em cartório. Santa Maria só consegue pensar na dor que não passa. Ele já pensa na próxima eleição ─ e, amparado nos documentos que juntou, garante que estava tudo em ordem na boate assassina. A tragédia só aconteceu por não ter lido a papelada do prefeito.

AS MENTIRAS DE SANTA MARIA ( RS)


Médico de Porto Alegre se apoia no tratamento dos sobreviventes de Santa Maria para denunciar as mentiras oficiais sobre o atendimento em UTI

Fachada da boate Kiss, destruída, após incêndio
Desde domingo, em comentários remetidos de Porto Alegre e publicados nesta coluna, o médico intensivista Milton Simon Pires se apoia no tratamento dos sobreviventes da tragédia de Santa Maria para impedir que mentiras oficiais deformem a verdade sobre o atendimento a casos que exigem internação em alguma UTI. Neste artigo publicado no blog do jornalista gaúcho Políbio Braga, Milton Pires fez um perturbador resumo da ópera. Confira. (AN)
Em 1967 a Guerra do Vietnã envolvia um contingente cada vez maior de soldados americanos. A necessidade de atendimento aos feridos graves, entre eles as vítimas de queimadura e intoxicação, demandava recursos materiais e humanos cada vez mais complexos.
Os Estados Unidos construíram, na cidade litorânea de Da Nang, um hospital militar com o objetivo de atender suas tropas. Nesta época não existia propriamente a especialidade hoje conhecida como Terapia Intensiva. Foi com espanto que os médicos militares começaram a atender um número cada vez maior de pacientes vítimas de intoxicação em função do chamado “agente laranja” e outras substâncias químicas utilizadas para desfolhamento de florestas e localização dos esconderijos inimigos.
As pessoas apresentavam como quadro clínico uma síndrome que envolvia, entre outros sinais e sintomas, acúmulo de líquidos nos pulmões e diminuição da capacidade de oxigenação do sangue. Essa nova doença ficou conhecida como “Pulmão de Da Nang” e hoje, nós intensivistas, a chamamos de SARA – Síndrome de Angústia Respiratória do Adulto.
Fiz esta breve introdução para dizer que é isto que pode acontecer com os sobreviventes do incêndio de Santa Maria. Mais: gostaria que ficasse muito claro a todos que este tipo de “coisa” não pode ser atendido (numa situação que envolve um número de pacientes tão grandes) com segurança em nenhuma capital brasileira.
Isto ocorre porque simplesmente não há unidades de terapia intensiva (UTIs) em número suficiente nem respiradores artificiais para atender tanta gente.
Em meio a tanto desespero não há um só político ou autoridade da saúde com honestidade suficiente para dizer aquilo que escrevi acima.
Há pelo menos quatro décadas assistimos gerações e mais gerações de secretários e ministros da Saúde insistindo na ideia de medicina comunitária e prevenção.
Pois bem, pergunto agora: o que nós, médicos intensivistas, devemos fazer com as pessoas que sobreviveram ao incêndio de Santa Maria? Encaminhá-las para postos de saúde?
Não se constrói um hospital público em Porto Alegre desde 1970!
Pelo contrário; vários foram à falência e fecharam! Que o Brasil inteiro saiba que é MENTIRA a afirmação das autoridades de que Porto Alegre tem leitos de UTI suficientes para atender toda essa gente!
A Secretaria estadual da Saúde pode, se necessário, comprar leitos na rede privada mas mesmo assim é muita sorte haver algum disponível.
Com relação aos responsáveis por esta tragédia, deixo aqui a minha opinião – foi o poder público corrupto, negligente e incompetente, quem MATOU todos estes jovens!
É esse tipo de gente que quer entupir o Brasil com médicos de Cuba e do Paraguai, que manda médicos para o Haiti e que insiste em saúde “comunitária”, que agora aparece na televisão chorando e abraçando os pais das pessoas que morreram.
Termino aqui; como em toda situação de guerra, a primeira vítima de Santa Maria, assim como em Da Nang, foi a verdade – jamais esqueçam isto !